segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A REVOLTA DOS ALFAIATES E A COMUNICAÇÃO



Por Marcos Rodrigues
Jornalista

A cidade do Salvador foi cenário da Revolta dos Búzios ou Revolta dos Alfaiates, ocorrida no fim do século 18, em agosto de 1798. Sob forte influência da Revolução Francesa, a intenção era separar o Brasil de Portugal, abolir a escravidão e criar a República. A memória do movimento parece ter caído num lugar comum com a persistência de alguns em tornar heróis os líderes Lucas Dantas, Luís Gonzaga, João de Deus e Manoel Faustino, condenados à forca. Acredito que até hoje um elemento passa totalmente despercebido ao longo de todo o período colonial, a comunicação.
Todos os anos, neste mês, revejo passagens do livro A Comunicação Social da Revolução dos Alfaiates, do jornalista e professor Florisvaldo Mattos. Resultado da sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Bahia, é um trabalho pioneiro como estudo de comunicação transversal ao fato histórico em questão. As marcações oportunas dão mostra da educação já deformada que recebemos e uma cultura nunca levada a sério pelas classes dirigentes, como elemento de cidadania.
Para começo de conversa, o primeiro ponto salientado pelo autor é o aspecto oral da comunicação. É sabido por outros estudos que na Europa as artes gráficas seguiam a todo vapor no seu desenvolvimento. Porém, a coroa portuguesa não foi capaz de trazer para a colônia tais avanços industriais. A tradição oral foi a principal marca da produção cultural e da comunicação do brasileiro até o presente. A origem estaria nas dificuldades da população em acessar os produtos da cultura já em alta no chamado primeiro mundo.
Por aqui, em 1761, a sede do governo-geral foi transferida para o Rio de Janeiro. Sem conhecer a imprensa, a capitania da Bahia tinha em torno de 50 mil habitantes, a maioria escravos ou alforriados e homens livres desempenhando ofícios considerados desprezíveis pelas elites da época, como alfaiates. Essa população pobre, negra, mestiça sofria com o alto custo de vida, a falta de alimentos e o preconceito racial. O clima tenso favorecia, portanto, a circulação de ideias de “igualdade, liberdade e fraternidade”, o lema da Revolução Francesa.
Diante desse contexto, como se davam as relações culturais no Brasil daquele período? O livro de Florisvaldo Mattos é uma oportunidade de conhecer a sociedade colonial brasileira, nos aspectos da educação, cultura e comunicação. Um texto útil a quem se preocupa com a formação cultural brasileira e luta por uma sociedade menos cruel, sem discriminações.


O autor relata a clara falta de interesse em alfabetizar os índios, que deveriam ser utilizados só como força de trabalho. Os negros vindos da África deveriam ser mantidos na ignorância, afinal eram apenas mercadoria.
A coroa portuguesa não pensou na educação, nem cuidou dos valores culturais de índios e negros escravizados. O sistema educacional em nenhum momento beneficiou essa população heterogênea mantida na subserviência. Os portugueses limitaram o desenvolvimento da cultura na colônia, a começar pelo ensino, observa o pesquisador, e desprezaram a construção de um sistema educacional.
Mattos revela que “a colônia não conheceu nem a imprensa nem a universidade e as sociedades literárias, quando toleradas”. O intercâmbio intelectual era mínimo e não havia a comunicação de ideias, tendo em vista a precariedade das técnicas de informação. Assim, poucos escreviam cartas ou livros e a sociedade baiana da época teve a sua forma mais avançada de comunicação no uso limitado da escrita. A Bahia colonial passou ao largo da produção impressa.

Desse modo, conforme o texto, adquirir conhecimentos necessários ao desenvolvimento cultural, troca de informações, só seria possível de três maneiras: pelo aprendizado informal, pela comunicação manuscrita e pelo livro ou outros materiais impressos, geralmente de origem estrangeira e de contrabando. Ao que parece escapou aos historiadores que, do nascimento ao fracasso, a Revolução dos Alfaiates constituiu apenas atos de comunicação. Obrigado, professor. Terminou o espaço.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

FLORISVALDO MATTOS - UM POETA DE CLASSE

Florisvaldo Mattos lançou em abril de 2017 seu oitavo livro Estuário dos dias e outros poemas

Por Wagner Schadeck

De um modo geral, Chesterton distinguia na sociedade três classes de pessoas. A classe do povo, a dos poetas e a de cientistas e intelectuais. De maior valor, a primeira classe é responsável pela produção. A ela em alguma medida pertencemos todos nós. Como um mal para suas famílias, ainda que um bem para a humanidade, a segunda classe é responsável pela expressão do sentimento popular. A ela pertencem aqueles que, “tendo cultura e imaginação, usam-nas para compreender e compartilhar o sentimento de seus companheiros, ao contrário daqueles que os usam para conseguir o que eles chamam de ‘subir a um plano mais elevado’”. E, por fim, a terceira classe, um tormento tanto para as famílias quanto para a humanidade, define-se pela insensibilidade em relação ao povo.

Em termos simples, o poeta difere do povo por sua sensibilidade, os cientistas diferem do povo por sua insensibilidade. Eles não têm sutiliza e sensibilidade suficiente para simpatizar com as pessoas comuns. Seu intento é apenas contradizer o povo, ignorá-lo, conforme seu próprio plano egoísta, para mostrar a si mesmos que o povo está errado, independente do que diga. Esquecem que a ignorância tem, muitas vezes, as intuições requintadas da inocência.
Além disso, Chesterton tem razão ainda quando afirma que:
Os poetas fazem com que o povo se sinta mais sábio do que jamais poderia imaginar. Há muitos elementos estranhos nessa situação. O mais estranho de todos talvez seja o destino desses fatores no contexto político. Muitas vezes, os poetas que abraçam e admiram o povo são apedrejados e crucificados. Aos tolos que depreciam o povo, geralmente são lhes dado terra e coroa.[1]  

Na história de nossa poesia, vemos que a criação de uma poesia científica – do parnasianismo e da escola de Martins Jr. à tecnocracia concretista – alimentou tão somente a ociosidade de pedantes narcisistas, encerrados em si mesmos, aprofundando ainda mais o abismo entre o povo e a cultura. E por outro lado, os nossos poetas mais populares – Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Drummond, Quintana, entre outros – sempre apresentaram uma poesia pontífice. Convém lembrar que poesia do povo não é “democrática”, nem mesmo partidária, tampouco “conscientiza as massas”; é uma poesia que encerra o paradoxo do ser: o limite e a ultrapassagem. É uma ponte que demarca o “senso-comum” e o eleva para a alta cultura.
Desta forma, a poesia de Florisvaldo Mattos pertence à melhor estirpe de poetas do povo. Nela vemos quatro fases: a primeira, de uma feição simbolista e surrealista ­– afinidades que jamais o abandonarão; a segunda, histórica e regional; a terceira, de cunho social ou engajado; e a quarta, com o anelo pela vida e a celebração da amizade.
São elementos mais recorrentes dessa primeira o marítimo e o telúrico:

Apenas tempo
……. mar e eco
dissolvo-me em fronteiras
de penumbra e ausência.
(Limites do Mar – Noticiário da Aurora: 1952-1954)

Amarescentes reses
bois de amaranto…
(Boi e Cavalo como Nave – Agrotempo)

Na segunda fase, no entanto, o poeta filia-se à nossa bela tradição de poesia histórica, dos cancioneiros até Cecília Meireles.

Rei, reino meu terço de chamas, reino
Ausente de escrituras. Sesmarias
Reúno, trituro búzios cor de níquel,
Virgens de passo e voz, estranho aquário.
(Segundo Monólogo – Reverdor)
I.
Mar de cinza escuro e sal vestido,
Vasto céu de azul e balaiadas,
Do norte venho no bambaê das ondas;
É o sol que mal me acorda, cerca-me
Um signo de fimbria expectante:
Mui outrora idos, ávidas falas.
(Mares anoitecidos)

Mas à medida que se distancia do verso experimental e da poesia das coisas do primeiro momento, o poeta baiano volta-se ao debate público da Ágora. Com Fábula Civil, o “Agrotempo” dá lugar ao “Antropoema”; e o marítimo e o telúrico, à cidade.

…… Sou todo companheiros.
………………………..
………………………..
faço do amor aos outros meu caminho.
(Massa)

Nesse livro nota-se a evocação do sentimento do mundo, embora não deixe de apresentar marcas coloquiais, como em:

…as mulheres voltavam com os meninos.

Mas é, sobretudo, uma poesia inundada pelo contingente:

…os preconceitos rimavam com a economia.
(Galope Amarelo)
Os engenheiros rasgam
o ventre da cidade.
(Canteiro de obras)

É também o canto aos homens do presente, indicando o futuro.

Algo nascerá de tua boca
afogada no ópio certamente:
uma máquina, um homem talvez.
(Festival)

Poema central é o homônimo Fábula Civil. Trata-se uma narrativa sobre as ruínas do templo (possível referência à civilização ocidental) e a sua reconstrução pela mesma juventude que o destruiu. Numa espécie de julgamento/assembleia, as crianças falam:

“Levanta-se no lugar um templo novo
de tamanho que sirva para todos
e se lhe dê de destino outro uso.
Se possível que não tenha paredes,
nem portas, nem janelas, nem telhado.
Seja o ano inteiro uma área livre
para todos os homens para sempre.”

Os juízes romperam indignados:
“Quem poderá contruir um templo desse?”
Os meninos foram novamente unânimes:
“Nós. Nós que vivemos neste lugar.”

É o poeta falando aos iconoclastas de seu tempo. Aí essas crianças sem faces, feitas tão somente de discurso. Elas não têm identidade; têm anseios. Desejam o niilismo e querem efetivar a mensagem da utopia socialista. Esse poema testemunha os planos de uma geração que queria reformar a humanidade e o país. Seriam esses jovens sonhadores os mesmos que tomaram nosso estamento burocrático? Eis uma questão que esse poema suscita para a classe de cientistas políticos e intelectuais, aos quais, como lembra Chesterton, também chamamos de “pensadores”…
Ao contrário dos homens dessa classe, preferimos-lhe a poesia marcada pelo cotidiano e pela infância – uma autêntica poesia do povo. Nela o poeta liga o particular ao universal, tendo por ex. o “cacau” como símbolo. Nela ainda encontramos momentos admiráveis, como amores do poeta pelas artes plásticas, o cinema, o futebol e o jazz:

Começo por lembrar Louis Armstrong,
King Oliver, Sidney Bechet e o gong
De Big Sid Catlett; sigo um fundo vale
(de lá a Nova York, nada que me cale):
Hawkins Body and Soul arrebentando,
nos criativos trinta do suingue, quando
reinam Flecther e Jimmie Lunceford,
a nova ordem do bom para o melhor.
Invoco Hodges, Bigard, repito Blanton,
o trombone vodu de Trick Sam Nanton,
no rastro de Bix, Basie, algo que fungue
o pescoço da aurora, até Lester Young,
príncipe do langor; alas ao bebop
e a quem que na caudal surja alto e tope
com Dizzy, Parker, Monk, Powell, Mingus,
que ao jazz raspam a face de domingos,
ou reste apenas nos flancos dessa grei
espaço à prata e o ouro de Billie Holiday:
corça, escapa entre dédalos de pedra,
tênue haste, mais Ofélia do que Fedra.
(Saudades do século XX – Mitologias: II – Indícios de ouro, acordes na jângal)

Nessa fase, Florisvaldo consolida-se como um exímio sonetista.

SANTIAGO DE COMPOSTELA
Quando pelos caminhos se levanta
A poeira das peregrinações;
Quando eu rota de estrelas e canções
A pedra perpetua e evoca a santa
Aparição da Luz que atraiu reis,
Santos e papas hoje sepulturas;
E torres arremessam às alturas
O vigor dos mistérios e das leis,
Que os arcebispos no calor das guerras
Edificaram pela fé em Santiago,
As igrejas, os cruzeiros e as terras

Em redor, e o momento tem nos sinos
A memória de um claro instante mago,
A humanidade fala pelos hinos.
(Imagens da Terra)

São característicos também da sensibilidade poética de Florisvaldo Mattos o intimismo e a memória:
II
Na manhãzinha de um verão defunto,
Repisando palavras, conselheira,
A mãe urdia na hora de partida,
Igualmente a um martelo na bigorna:
“Vai, filho, estude, aprenda; escreva e leia.
A luz do livro guia o pensamento”.
Os dias disparando na folhinha,
Subo no trem e vou para Água Preta.
Trilhos rangem. A máquina resfolga,
Bafejando fumaça nos dormentes.
Como a vida, o trem passa e passará.
Chegar, parar, partir, é o seu destino,
Sem que perdure vivo nos apitos
O pranto que ele deixa para trás.
(De prantos na folhinha – Estatuário dos dias…)

É quando o poeta baiano transforma as lembranças em símbolos que percebemos que Chesterton está certo. Aí adentramos no reino da poesia, de que falava Drummond. Há nessa última fase florisvaldiana um anseio vital, sorvida pelos sentidos. Grande poeta de sua geração, a poesia de Florisvaldo Mattos habita o coração dos homens de todos os tempos.

[1] G. K. Chesterton. Os Três Tipos de Homens. Tradução: Agnon Fabiano. Alarmas e Digresiones, Coleção Austral, p. 98.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

DIA DO ESCRITOR

Por Florisvaldo Mattos (Facebook, 26.07.2017)



DIA DO ESCRITOR (SEM HORROR)
Já que me apelidaram de escritor, neste nada comercial Dia do Escritor, quando me sinto confortável na condição de mero garatujador de símbolos, agradecido da gentileza, resolvi postar neste espaço a capa de meu primeiro livro, REVERDOR (Salvador: Edições Macunaíma, 1965), concebida, tanto como as ilustrações internas, pelo saudoso gravador Calasans Neto (1932-2006)
Nenhum texto alternativo automático disponível.

SOTERUMANIDADE

A imagem pode conter: atividades ao ar livre
Imagem: Salvador, BA, Pelourinho. Foto de José Spínola, s.d.
Por Florisvaldo Mattos
Esta foto postada pelo dinâmico construtor Eduardo Bandeira, de tão visualmente expressiva como memória urbana e cultural, animou-me a reproduzir um poema, que publiquei lá pelas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, cuja verbalização e imagética convergem totalmente para o Centro Antigo de Salvador, dedicado a um saudosíssimo boêmio, grande poeta encantador de serpentes femininas.
Segue abaixo.
SOTEROLIMOS
A Jeovah de Carvalho
A cidade distende o couro crespo
imerso nos gemidos dos telhados;
janelas e portas (fanais da noite),
despejando lamentos sobre pedras,
saem do escuro por uma luz sonora
por onde viaja a goiva do grave Hansen,
retorcem-se cruciais chapas de Mário,
ladeiras onde versos de Godô
formam lagos de esperma flutuante.
Bordéis que torres sacras abençoam
nas horas silentes, escoando clamor,
soluço e preces sobre frontes boêmias;
serenas lanças de astros que ornamentam
recintos de dolente passar, ó
pontas soberbas contra o choro agudo
de sacrossantos rostos mendicantes,
faces roídas de infinita espera.
Eretas torres de azulejaria
enferma (e as luxuriosas cornijas?),
que perscrutais pelo céu de amaranto
para antepasto na manhã de ausências?
Que anseios guardais em pedra de lioz?
Aspa da noite, deusa de chavelho,
a lua vem com o ventre pressuroso,
as ladeiras se enroscam e há um torpor
que amortece o tambor nos cabarés.
Tudo isto é obra do oceano que lá embaixo
rola parlamentando com os rochedos.
Lixo da rua, o mesmo dos navios
que lançam do mar tudo que emporcalha
a fímbria muda, a fímbria que admiramos,
dos administradores prometidos
gestos nos poupa, e que só morte esconde.
Tudo é inexorável, e nós sabemos:
um pedaço de mar é o que nos sobra.
A cidade adormece. Lábios boêmios
se cruzam sob marquises enfeitadas
com a luz que salta da burocracia.
Lentos lagos ali de morna esperma,
corredores de espelhos, qualquer coisa
que venha e nos livre das asperezas.
E logo esta mulher que está de costas,
lábios partidos, ombros nus, cidade
descarnada, a pele colada aos ossos.
O clamoroso ventre da montanha,
na noite de gemidos, no cassino,
mulheres seminuas, apostas altas;
na rua iluminada, bondes rangem,
levando bêbados; as rotativas
despacham o noticiário em pacotes:
povos guerreiros de sangrentas vozes,
os pobres nas manchetes de polícia,
As miúdas intrigas de governo.
A vida civilizada de uns poucos
o porto despeja em caixote e pipa.
Sabemos quem são os ricos, o infeliz
amanhã e o próximo morto; sabemos
que tudo permanecerá, ninguém
(gente ou jornal) pergunta se há razão.
Passa a noite, e a manhã há de passar.
A tarde trará cores renovadas,
afastando o que dantes era dúvida.
Os habitantes abandonarão
a pompa dos festins; a roleta, o álcool.
Saímos todos a praticar esportes.
Os capitães estão em polvorosa:
arquivaram as velhas ambições,
o momento não era para festas.
Apenas a cidade amanhecera,
navios foram na costa afundados.
É a manchete do dia, certamente.
(Florisvaldo Mattos, "Mares anoitecidos", 2000)

BAUDELAIRE, POETA DA MODERNIDADE

Resultado de imagem para charles baudelaire
O poeta Charles Baudelaire retratado por Gustave Courbet (189-1877)

AUGUSTO DOS ANJOS, SEMPRE

http://rascunho.com.br/beleza-hedionda/
VERSOS ÍNTIMOS, Soneto de Augusto dos Anjos, constante do EU (1912)

terça-feira, 27 de junho de 2017

LAMPIÃO E BANDO NA PASSARELA

Maria Bonita, companheira de Lampião, em foto sem data, colorizada por Rubens Antonio

A cultura do espetáculo no banditismo do Nordeste

Por Florisvaldo Mattos

Os cangaceiros, cuja história de riscos, façanhas e crueldades inspirou conceituações diversas – símbolos do mal, como criminosos frios e sanguinários, para as autoridades e classe média urbana, principalmente do litoral; heróis, homens bravos e destemidos a serviço da defesa da honra, para os camponeses, principalmente o sertanejo habitante dos descampados -, dormem na memória e no esquecimento, mas às vezes ressurgem por repentinos sacolejos da estética e da comunicação.
Houve época (anos 1960/1970) em que nas universidades estudos de pós-graduação e pesquisas se interessaram pelo cangaço como uma saga de rebeldia social de lastro primitivo; reportagens descobriram no nordeste, centro-oeste e oeste idosos remanescentes de bandos desaparecidos havia décadas; livros foram escritos e publicados; ensaios e romances, reeditados; filmes recontaram sua história em nível ficcional, peças foram encenadas; o figurativo das artes plásticas os trouxe de volta.
De raro em raro, a febre evocativa retorna, em filme, poesia ou ensaio. Como agora, pela agudeza historiográfica da francesa Élise Jasmin, especialista na análise de episódios históricos, sociais e culturais por meio da fotografia, voltada em grande parte para o Brasil, com o que arrebatou em 2001 o prêmio Le Monde de Pesquisa Universitária com o livro Lampião, Vies et Mors d´un Bandit Brésilien.
Agora, aparece no Brasil com o volume Cangaceiros, publicação da editora Terceiro Nome, de São Paulo, baseado na edição francesa, cujo projeto gráfico segue fielmente, preparada para coincidir com o Ano do Brasil na França, evento realizado em 2005.
O livro, diga-se a bem da verdade, apresenta-se de saída com o duplo selo da originalidade – tanto como objetivo estético, como no caráter revelador de um universo cênico. Pretende narrar, através da fotografia, a aventura trágica do cangaceiro Lampião e seu bando, assim como a repressão movida contra eles. De início, que se saiba, é a primeira vez que, de forma organizada, estruturada e pesquisada, intenta-se uma incursão por este vasto território visual, num trabalho de arqueologia icônica que traz à superfície do espaço impresso, além de material já conhecido, dezenas de fotos somente conhecidas e mantidas por colecionadores dedicados à história do cangaço no Brasil.
Compõe-se a obra de uma introdução a cargo do historiador Frederico Pernambucano de Mello, autoridade em estudos do cangaço, um ensaio da autora tratando dos significados de seu trabalho e 85 enfileiradas fotografias (das págs. 36 às 120), que se dividem em duas partes: as de Lampião e seu bando, em vários momentos desde 1926, quando estiveram em Juazeiro do Norte, no Ceará, para encontrar-se com o Padre Cícero e Lampião receber a patente de Capitão dos Batalhões Patrióticos, formados para dar combate à Coluna Prestes, e as de vários grupos denominados  forças volantes, que então se formavam para perseguir e eliminar cangaceiros.
Benjamin Abrahim, Maria Bonita e Lampião

Não faltam nem mesmo fotos de cabeças cortadas, na repugnante escatologia da exibição delas como prova soberba de êxito na perseguição e até de corpos empilhados no massacre de Angicos, na Bahia, em 28 de julho de 1938, além da famosa coleção arrumada de cabeças antes do envio para estudos lombrosianos no Instituto Nina Rodrigues, de Salvador, onde permaneceram para opróbrio da inteligência baiana até 1969, quando foram enfim sepultadas no cemitério das Quintas dos Lázaros, por pressão de intelectuais, jornalistas, professores e estudantes.
Em verdade, numa narrativa litero-visual de estrutura livre, mas de conteúdo distribuído em inter-títulos temáticos, embora não cite uma única vez Charles Sanders Peirce (1839-1914), o criador da teoria geral dos signos, nem mesmo os que posteriormente, à base de princípios teóricos, abriram novos campos à linguagem (Jean Piaget, A. J. Greimas, J. Kristeva e Roland Barthes), Élise Jasmin realiza no seu ensaio um estudo de semiótica aplicada, expondo a personalidade de Lampião, a da mulher dele, Maria Bonita, e de seus seguidores, na plenitude de seu culto à aparência, que vai das formas de comunicação, animação, gostos, hábitos, peculiaridades à teatralidade dos gestos, sem se recusarem a atitudes que refletissem extravagância, enfim uma sociologia e uma antropologia mergulhadas num cenário de clandestinidade.
E o que se contempla, através das fotografias, reproduções e descrições, é um Lampião prazeroso do luxo de existir, na medida de seu mundo demarcado pelas solidões do sertão profundo, árido e catingueiro, a exibir múltiplos anéis, armas, bandoleiras e cartucheiras cravejadas de ouro e prata, chapéus de couro, cuja estética rústica ganharia alma e fulgências no cinema, roupas de cores fortes e camisas listradas ou estampadas, com botões especiais. Ninguém melhor que Jasmin para descrever Lampião no seu culto da aparência.
“Foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua imagem – e aí reside sua grande originalidade. Teatralizou sua vida, utilizou modos de comunicação da modernidade que não faziam parte de sua cultura original, principalmente a imprensa e a fotografia. Vestidos de maneira extravagante, com roupas de cores berrantes, chapéus imensos, enfeitados com medalhas, exibindo anéis, colares e broches, Lampião e seus cangaceiros sempre manifestaram o gosto ela ostentação”.
Registra a autora o prazer de Lampião, toda vez que aparecia numa cidade em que gozava de acolhida pacífica ou se impunha sua fama de bandoleiro, em desfilar pela rua com seu grupo exibindo sua imagem e o que melhor arrecadasse no botim.

Élise Jasmin parece ter razão, ante uma descrição que dele faz o folclorista cearense Leonardo Motta (1891-1948), com base em seu trânsito pelo interior do Ceará:
“Amulatado, estatura meã; magro e semi-corcunda; barba e nuca ordinariamente raspadas e sempre que é possível perfumadas; (...) o olho direito branco e cego, escondido pelos óculos pardacentos, de aros dourados; mãos compridas que se assemelham a garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cor berrante, preso ao lado por valioso anel de doutor em direito; sobre o peito, medalhas do padre Cícero, escapulários e saquinhos de "rezas fortes", chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turma de curiosos; folgazão, quando entre poucos estranhos ou no meio de comparsas; (...) paletó de camisa de riscado, claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e chales finos; tórax guarnecido por 3 cartucheiras; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos um fuzil; à cintura duas pistolas "parabellum" e um punhal de 78 centímetros de lâmina”.
Lampião costurando em máquina de mão da marca Singer

Fotos individuais, de duplas ou de grupos imprimem ao livro de Jasmin uma fartura de flagrante exibicionismo. E há no livro algumas revelações. Por exemplo, a perícia de Lampião na costura de roupas, alinhavando e costurando as suas próprias vestes numa máquina marca Singer, traço de personalidade que a própria autora alude ter sido motivo para que a propaganda anti-cangaço pusesse em dúvida a virilidade do cangaceiro. A responsabilidade de Lampião por introduzir a figura da mulher no cangaço, a partir de 1930, situa-se como ideia que jamais acontecera a qualquer bando anterior. A influência dos dotes criativos de Dada (Sérgia Maria da Conceição), mulher de Corisco, como costureira, na mudança radical nos motivos e confecção do guarda-roupa dos cangaceiros, ao ingressar no grupo, seria de importância capital.
Quanto ao papel desempenhado por Dadá, observa Élise Jasmin: “A partir de 1932, lançou a moda dos motivos bordados em couro branco sobre os chapéus, das flores em tecido colorido bordadas sobre as bolsas, dos peitorais e dos cinturões largos. Desde então, todos os cangaceiros vestiam-se com esses novos trajes”. Questão de talento, vê-se.
Por essa descrição e pelo visual das fotografias, pode-se observar, na parte reservada a documentar os aspectos dos grupos repressores, quanto as forças volantes imitavam os cangaceiros, não apenas no trajar, mas também nas posturas, inclusive em poses para fotografias. Não está lá, mas me atrevo a uma suposição, para tais atitudes. Tudo faz crer que se ligam à necessidade de obterem para sua empresa o aval de simpatia dos habitantes do meio rural distante, entre os quais os cangaceiros, por motivos sedimentados em suas próprias origens – pobreza, miséria, injustiça, defesa da honra, vida agrária -, com seus atos e presença, gozavam de boa acolhida e até de proteção. As forças volantes precisavam parecer-se com eles, uma tática de publicidade, baseada tão somente em signos ícones e indiciais, que residiam na aparência.
E, surpresa das surpresas – se não se trata de um devaneio parisiense de Élise Jasmin: a revelação uma faceta desconhecida do mais afamado entre chefes do cangaço – a de Lampião leitor. E, além de incluir uma foto dele a ler um exemplar da revista O Cruzeiro, de outra com um de O Globo na mão e uma terceira com ele recolhido à plácida leitura de um livro, informa a preferência de Lampião por romances de aventura e ficção policial, sendo até leitor de Edgar Wallace e Georges Simenon.
Élise Jasmin também destaca o papel do fotógrafo Benjamin Abraão, de origem libanesa ou palestina, no melhor da documentação visual sobre Lampião e seu bando, quando conseguiu, obtendo a confiança dele e do grupo, realizar fotografias, e até um filme, hoje preciosidade rara dessa parte da história do Nordeste brasileiro, não só pelo que produziu como pelo arriscado do feito, tanto que, por causa disso (encontrou-se com Lampião de 1934 até quase perto da morte deste) e pela repercussão de suas fotos publicadas em jornais do litoral e do Sul do País), Abraão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas (PE), em maio de 1938. A maior parte das fotos do livro são reprodução de fotogramas do documentário de Abraão, no que diz respeito a Lampião e seu bando.
Outros fotógrafos registraram imagens das ações do bando de Lampião e da repressão a ele feita, na sua movimentação por estados do Nordeste, como Lauro Cabral, no Ceará, e amadores, como Eronildes de Carvalho, em Sergipe. Além de um monumento visual, o livro de Élise Jasmin é também um ensaio sobre o banditismo como fenômeno social, que no Brasil só aconteceu no Nordeste, por motivos mais que óbvios, e por isso tem merecido figurar nas estantes de todas as suas bibliotecas públicas.
 
Cangaceiro Corisco e costureira Dadá, sua mulher
Aspereza e solidão são os substantivos que, de logo, vêm à mente de quem estuda o banditismo como fenômeno social no Nordeste e a figura de Lampião, a movimentar-se por um cenário de violência e tragédia, individual e coletiva. Hoje, com a distância dos conflitos sociais e as paixões políticas que dominaram a cena brasileira na República Velha, marcadas ainda pelo patriarcalismo e provincianismo do Império, é possível encará-los com uma visão menos maniqueísta.
Aliás, talvez por influência do historiador inglês Eric J. Hobsbawn - Bandidos e Rebeldes Primitivos – Estudos sobre formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX, com traduções no Brasil -, muitos estudiosos brasileiros, a partir dos anos 1960 (Rui Facó, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Nertan Macedo, Cristina Matta Machado, Estácio de Lima, Aglae Lima de Oliveira, Rodrigues Carvalho, Eduardo Barbosa), passaram a analisar o banditismo, notadamente na sua forma de cangaço nordestino, senão com um olhar magnânimo, com uma visão lastreada na ciência, pela porta da sociologia e da história social, despida de preconceitos e sem a velha atitude de justiciamento, amparada na criminologia.
Com efeito, essa mudança de ângulo propicia melhor compreensão das épocas de banditismo do passado, sem transformar o bandido (no caso, o cangaceiro) em herói, mas também sem lançá-lo no poço da condenação pura e simples, como um criminoso comum. A tendência foi considerá-lo protótipo de uma rebelião social de nível primário, nas formas que existiram, não só no Brasil, mas no México e na Itália; nenhum deles com organização de conteúdo político, embora possam ser utilizados como instrumento pela política.
Se na Itália houve o famoso Bandido Giuliano, agindo no sul com o seu bando, cuja história alcançou as câmeras e as telas cinematográficas, no Brasil houve o bando de Lampião, mas antes dele vingaram o de Jesuíno Brilhante (Jesuíno Alves de Melo Calado), atuante no último quartel do século 19, no Rio Grande do Norte, o de Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais), com ação em Pernambuco, entre 1896 e 1914 (morreu em 1944, aos 68 anos) e Sinhô Pereira (Sebastião Pereira da Silva), agindo de 1916 a 1922.
Lampião, o primeiro sentado, à esquerda, e cangaceiros, em foto colorizada por Rubens Antonio