sexta-feira, 17 de novembro de 2017

VAMOS BEBER QUALQUER COISA

Depois de ler esta reflexão de Bárbara Pessoa desdobrada em doses filosóficas sobre a condição de ser ou estar bêbado e concordar com a afirmativa de que tudo depende do "modo como cada um lida com suas questões" existenciais, vi-me impelido a invocar dois exemplos; um, de conotação dramática, e outro, em torno de como o ato de beber qualquer coisa adquire tonalidades líricas.
O primeiro diz respeito a famosíssimo bêbado escritor, que amargurava dias finais depois que fora alvejado por um câncer, que lhe varava o estômago. Trata-se de Dashiell Hamett, genial criador de romances policiais, entre os quais a obra-prima intitulada "O falcão maltês", de quem se dizia consumir um litro de uísque por dia.
Doente e triste, certo dia. ao acordar, após uma noite de contínuas dores e sofrimento, na saída do quarto, Hammett depara-se com sua mulher, a grande dramaturga Lillian Hellmann, que lhe pergunta:
"Querido, como está, como passou a noite?". Ao que responde Hammett: "Não, não passei bem". E ela: "Por que assim, querido?". E Hammett, de cenho carregado, lhe responde: "Por que dormi um pouco sóbrio".
Por fim, o segundo exemplo: um poema de Ruy Espinheira Filho, sempre lembrado, citado e declamado em bródios com os amigos, que consta de seu livro "Memória da chuva", 1996. Abaixo, a preciosidade, obra de poeta maior.
CANÇÃO DEPOIS DE TANTO
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
Como se vê, tudo depende do "modo como cada um lida com suas questões"...
Em tempo: muito obrigado, Bárbara Pessoa, pelo texto que me sugeriu esta pertinente divagação. FM. (No Facebook, em 16.11.2017).

Bárbara Pessoa estava  se sentindo sóbria.
Aos bêbados:
Quando se diz que alguém bebe para se anestesiar, para se alienar de si mesmo ou coisa parecida, fala-se isso em um tom pejorativo: como se as pessoas não tivessem o direito de esquecer-se, como se o esquecimento não fosse tantas vezes uma dádiva.
Se recebi o resultado de um exame e nele se lê que estou enferma, mas desejo me tratar, marcarei o médico para o quanto antes; se fiquei desempregada e quero trabalhar, tratarei de não tardar em enviar meu currículo; se fui deixada pelo ser amado e não há outro jeito senão esquecê-lo, deverei sentir essa ruptura enquanto se fizer necessário ao meu espírito... São exemplos de situações que pedem uma solução que muitas vezes não está no agora: o médico semana que vem, o currículo segunda-feira, o amor quando a vida quiser. O que fazer agora então? Por que não “beber pra esquecer os problemas”?
O modo como cada um lida com suas questões, a frequência com que bebe e a maneira como utiliza esse “esquecimento” provocado pela bebida não me interessa aqui julgar. Sim, as questões, os problemas, os medos, as tristezas existem e o fato de poder esquecê-los por um tempo deveria ser motivo de alegria e não de ingratidão. Não culpemos a bebida pela nossa procrastinação ou incapacidade de buscar outros meios.
O fato é que ninguém vacila quando diz “vou beber pra esquecer meus problemas” porque sabe que esquecerá mesmo. Frases acusatórias do tipo “ah, mas amanhã tudo retorna” é de um descaro sem tamanho: os senhores gostariam que a bebida fizesse sumir vossos problemas? Pois voltem duas casa, já que ela lhes prometeu fazer esquecer, por ora.
Olho para essa situação de um ângulo diferente: não acredito que a bebida nos faça esquecer, mas ao contrário nos lembre onde estamos aqui e agora, pois uma pessoa, quando está no bar, está no bar, está bebendo. Uma pessoa quando está no bar, faz seus melhores amigos na fila do banheiro ou é capaz de cantar sua música favorita como se fosse a primeira vez; é também capaz de apaixonar-se e desapaixonar-se em questão de segundos; é simplesmente capaz, corajosa, disposta.
Talvez, esse estado, no qual o atual é a única verdade, seja uma das dificuldades em se parar de beber: poder não se pre-ocupar por algumas horas.
Porque, quando você bebe, você não é um enfermo, um rejeitado ou desempregado, você é apenas um bêbado. E um bêbado está acima de tudo.

domingo, 12 de novembro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017

CEM ANOS DO READY-MADE DE DUCHAMP

Quem se interessa por arte em si mesma e sua história no século XX poderá enriquecer seus conhecimentos com a leitura deste ensaio, publicado na Folha SP, em 08/10/2017. Clique aqui.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SONETOS INGLESES NO BLOG MALLARMAGENS

Por iniciativa do poeta Nuno Rau, um de seus diretores, o blog Mallarmagens publicou uma pequena coletânea de sonetos no modelo inglês de Florisvaldo Mattos. Clique aqui.